A média das informações da semana passada mostrou que o mercado de Feijão entrou em uma fase de acomodação. Depois da forte alta de maio, especialmente no Feijão-carioca, os compradores reduziram o ritmo, testaram preços menores e tentaram usar a entrada de novos lotes para pressionar o mercado.
Isso funcionou em parte. Houve recuo nas indicações, principalmente onde apareceu Feijão comercial de qualidade média. Mas é importante separar a queda de preço da sobra real de produto. Não vimos uma oferta folgada de Feijão bom. Vimos um comprador mais cauteloso, a indústria tentando recompor margens, o varejo resistente a novos repasses e o produtor mais exposto quando precisa fazer caixa.
No Feijão-carioca, o ponto principal continua sendo a qualidade. O mercado pode até falar em baixa, mas Feijão de boa nota, limpo, seco e acima de 8,5 não aparece sobrando. Quem colocar tudo no mesmo balaio corre o risco de vender Feijão bom pelo preço do Feijão comum.
No Feijão-preto, a leitura também exige cuidado. O mercado teve acomodação, mas a sustentação estrutural segue maior. A oferta ainda inspira atenção, principalmente quando se observam a qualidade, as perdas regionais e a capacidade de reposição. O comprador tenta pressionar, mas o preto não tem a mesma gordura para queimar. Como grande parte do que será consumido será importada da Argentina, o mercado também fica à mercê das variações do dólar.
Agora, algo me chama atenção além do movimento interno de preços. Enquanto aqui se discute se o Feijão-carioca caiu alguns reais, no mundo todo começam a aparecer sinais de clima desfavorável para os Feijões e Pulses. E aí a pergunta ganha outra dimensão: o que vem por aí?
Não se trata de anunciar desabastecimento. Mas seria ingenuidade ignorar o risco. Se o El Niño se confirmar e ganhar força até o fim do ano, o impacto pode não aparecer apenas no volume produzido. Pode aparecer na qualidade, na regularidade da oferta, na sanidade das lavouras, na colheita e na capacidade de entregar Feijão bom ao mercado. Feijão ruim existe na estatística, mas não resolve o problema do empacotador, do varejo nem do consumidor.
Esse tema já deveria estar na mesa do governo. Monitoramento climático específico para Feijão, revisão dos instrumentos de seguro rural, incentivo à armazenagem, atualização do ZARC, estoques inteligentes e atenção ao Feijão como alimento estratégico não são detalhes. São medidas de prevenção. Quando o problema chega à gôndola, corrigir fica caro demais.
Para o produtor, a palavra de ordem agora é gestão. Quem está plantando precisa olhar menos para a conversa do dia e mais para a água disponível, a janela de plantio, a cultivar, a sanidade, o risco de mosca-branca, o manejo da irrigação e a capacidade de colher com qualidade. O mercado de agosto e setembro não será definido apenas pela área plantada. Será definido por quanto Feijão bom chegará, de fato, ao mercado.
Também vale olhar com atenção para a produção de Feijões vermelhos e rajados em pivôs. Não se trata de uma recomendação para sair plantando sem contrato, sem semente adequada e sem comprador mapeado. Mas, em um ano em que o clima pode apertar a oferta mundial, esses tipos podem ganhar importância. O Brasil precisa começar a enxergar não apenas o Feijão que sempre plantou, mas também o Feijão que o mundo pode precisar comprar.
No caso do Feijão-carioca irrigado, que será colhido entre agosto e setembro, a estratégia comercial precisa ser pensada desde agora. Quem tiver estrutura de armazenagem, capital disponível e condições reais de segurar produto sem comprometer o caixa deve avaliar a possibilidade de armazenar o máximo possível de Feijão bom. Em um ano de maior risco climático global, guardar Feijão de qualidade pode deixar de ser apenas uma decisão operacional e passar a ser uma estratégia comercial.
Mas é preciso separar oportunidade de aventura. Especular com Feijão só faz sentido para quem tem estrutura, informação diária, capacidade financeira e controle de qualidade. Quem precisa vender para pagar contas não deve brincar de mercado. Já para quem tem caixa, armazenagem e boa leitura de risco, carregar parte do Feijão-carioca colhido no irrigado pode ser uma alternativa interessante.
Se o clima complicar no Brasil ou fora dele, o Feijão bom, seco, bem armazenado e com qualidade comercial poderá valer muito mais do que o Feijão vendido no calor da colheita.
A diferença entre vender produto e vender oportunidade pode estar justamente na capacidade de armazenar, esperar e saber a hora de agir. No Feijão, como sempre, informação não garante lucro. Mas a falta dela costuma sair muito mais cara.
