O Feijão-preto valorizou 50% desde o início do ano, mas o movimento pode ainda não ter terminado. A falta de reposição dos cerealistas, o custo da importação argentina e a provável queda do Feijão-carioca em agosto começam a redesenhar o mercado.
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Ontem, conversei com produtores, agrônomos e comerciantes da região Sul sobre o mercado de Feijão-preto.
O Paraná responde por aproximadamente 80% da produção brasileira e reúne profissionais que acompanham esse mercado há gerações. São pessoas que conhecem profundamente os ciclos de produção, armazenagem e comercialização.
A pergunta que fiz foi direta:
Erramos na avaliação do Feijão-preto?
A dúvida surgiu porque, durante o período de forte valorização do Feijão-carioca no primeiro semestre, o Feijão-preto também reagiu, mas esperávamos mais. O preço ao produtor saiu de aproximadamente R$ 140 e chegou, em junho, a R$ 210 nos melhores lotes.
Mas calma lá. Isso representa uma valorização de 50%. Para o Feijão-preto, esse percentual é realmente importante.
Mas a conclusão também foi clara: ainda não foi suficiente.
O Feijão-preto permaneceu durante muito tempo em níveis extremamente baixos, muito distante das cotações do Feijão-carioca. Portanto, uma valorização de 50% sobre uma base deprimida não significa, necessariamente, que o produto já tenha atingido um preço confortável para toda a cadeia.
A conversa avançou, e alguns sinais importantes começaram a aparecer.
A colheita terminou antes
Normalmente, durante julho, ainda existem lavouras plantadas em janelas de maior risco sendo colhidas no Sul do Brasil. Neste ano, entretanto, esse volume praticamente terminou em junho.
Isso muda a dinâmica de reposição.
Quem formou posição enquanto os preços estavam subindo hoje consegue comprar de um lado e vender do outro. Entretanto, esses agentes evitam ficar completamente sem mercadoria.
São poucos os especialistas dispostos a manter uma parcela significativa do próprio capital integralmente aplicada em Feijão. Justamente por isso, o comportamento desses compradores merece atenção.
Os cerealistas especializados venderam muito Feijão no final de maio e durante junho. Agora, continuam movimentando volumes importantes, mas encontram dificuldades para repor o produto.
Foi aí que percebi que talvez estivéssemos olhando demais para os produtores da região Sul, enquanto uma parte relevante do jogo estava acontecendo dentro dos armazéns dos cerealistas.
Um cerealista pode vender 10 mil sacas durante uma semana. O problema começa quando ele tenta recomprar essas mesmas 10 mil sacas e não encontra oferta suficiente.
A Argentina não resolve rapidamente
Quando a reposição fica difícil no mercado interno, o caminho natural é olhar para a Argentina.
Entretanto, o Feijão-preto argentino chega atualmente à fronteira brasileira ao redor de R$ 280 a R$ 290 por saca. Quem está recebendo produto agora realizou a compra há mais de 30 dias.
Como o Brasil esteve praticamente ausente das importações argentinas durante parte do ano, os produtores daquele país direcionaram suas vendas para outros compradores.
Grande parte do produto disponível está em Salta, aproximadamente 2 mil quilômetros distante da fronteira.
Não basta decidir comprar.
É preciso encontrar caminhões dispostos a realizar essa rota, preparar toda a documentação, organizar o desembaraço e fazer o pagamento do produto sobre rodas, ainda na origem.
Tudo isso exige tempo e capital.
Portanto, a Argentina representa uma alternativa, mas não é uma torneira que pode ser aberta imediatamente sempre que o mercado brasileiro precisar de Feijão-preto.
O mercado mudou de endereço
Aqui no IBRAFE, quando os preços permanecem estáveis, normalmente encontramos menos vendedores dispostos a reportar negócios.
Ontem, porém, observamos um movimento diferente. Voltamos nossa atenção para os produtores, mas, principalmente, para os cerealistas que estão efetivamente comprando, vendendo e tentando repor mercadoria.
Com o aumento da produção de Feijão-preto em 2024 e 2025, surgiram muitos pequenos cerealistas prestando serviços aos produtores. Muitos desses prestadores de serviço compraram Feijão desses produtores quando os preços estavam entre R$ 130 e R$ 140 por saca.
O mercado do Feijão-preto pode estar mudando de endereço.
A oferta não está necessariamente desaparecendo de uma hora para outra, mas está se concentrando nas mãos de quem conhece o produto, possui estrutura e sabe administrar posição.
Esse detalhe pode ser decisivo nas próximas semanas.
O Feijão-carioca continuará ajudando
Existe um consenso entre os profissionais consultados: o preço do Feijão-carioca continuará facilitando a comercialização do Feijão-preto até que as cotações dos dois produtos se aproximem.
Essa aproximação poderá ocorrer durante agosto.
Pense comigo.
Qual é hoje o Feijão-carioca realmente mais barato disponível no mercado?
Praticamente não há volume relevante de Feijão-carioca nota 7 ou 7,5. A maior parte da oferta comercial está classificada como nota 8 ou superior.
Dessa forma, para muitos empacotadores e consumidores, o Feijão-preto acaba se tornando a alternativa mais econômica.
Agosto é chamado por alguns profissionais do mercado de "mês do desgosto". É justamente quando a maior disponibilidade de Feijão-carioca costuma pressionar os preços.
Neste ano, produtores de Mato Grosso já fazem suas contas considerando que uma lavoura com produtividade próxima de 55 sacas por hectare ainda pode gerar um resultado razoável, mesmo em um ano de margens menores.
Dentro dessa realidade, vender Feijão-carioca entre R$ 220 e R$ 240 pode acabar sendo considerado aceitável por parte dos produtores.
Também haverá menos possibilidade de armazenagem em algumas regiões. Isso tende a aumentar a pressão de venda no momento da colheita.
O possível limite da queda
Em Minas Gerais e em parte de Goiás, os relatos indicam que produtores médios e pequenos reduziram significativamente suas áreas neste ano.
As áreas maiores parecem estar concentradas nas mãos de produtores de maior escala e, em muitos casos, mais capitalizados.
Caso essa percepção esteja correta, poderemos chegar ao final de agosto com o Feijão-carioca dando sinais de que o limite da queda, seja ele qual for, foi alcançado.
O número considerado mágico por muitos compradores é R$ 250 por saca.
Esse seria o nível em que comprar do produtor e armazenar começaria a fazer sentido para um número maior de agentes.
O problema é justamente este: quando o mercado chegar a R$ 250, poderá haver tantos compradores interessados que talvez não exista produto disponível para todos.
A leitura do Clube Premier
O Feijão-preto já valorizou 50%, mas ainda carrega os efeitos de um longo período de preços baixos.
A colheita terminou mais cedo no Sul. Os cerealistas venderam volumes elevados e agora enfrentam dificuldades para recompor estoques. A importação argentina é possível, mas chega a valores elevados e depende de uma operação logística demorada.
Ao mesmo tempo, o Feijão-carioca poderá enfrentar maior pressão em agosto. Essa queda, porém, tende a estimular compras, armazenamento e formação de posições, principalmente ao redor de R$ 250.
Talvez não tenhamos errado sobre o Feijão-preto. Talvez tenhamos apenas olhado para o lugar errado e esperado uma valorização ainda maior do que a que já vimos.
Enquanto os olhos estavam voltados para o produtor, a mudança mais importante estava acontecendo nos estoques, nas posições e nas decisões dos cerealistas especializados.
Fica a lição. Comente conosco no grupo ou no privado o que você está vendo em sua região.
