Durante esta semana, insistentemente, os corretores e comerciantes do Paraná foram unânimes em afirmar que o Feijão-carioca 8 acima terminou. É lógico que isso significa que não há produto suficiente para atender nem mesmo o Estado. Os lotes que vão aparecer aqui e acolá podem ser de safra nova, porém, não há a mínima chance de que possam influenciar as cotações. Tecnicamente, a referência no Paraná seria nota 8/8,5 por R$ 300, e há produto comercial nota 7 aproximadamente por R$ 265/270. Já em Minas, foram reportados negócios a R$ 320, nota 8,5/9, mas com mais compradores do que vendedores.
O mercado de Feijão precisa olhar para o El Niño com a seriedade de quem sabe que o clima não entra na conta depois. Entra antes. Os episódios mais recentes que mexeram com o preço foram o El Niño de 2023/24, que trouxe chuva excessiva ao Sul e irregularidade ou déficit em partes do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, e depois a La Niña fraca de 2024/25, oficialmente caracterizada a partir de dezembro de 2024. No caso do El Niño 2023/24, o efeito sobre oferta e qualidade já apareceu nos preços: o CEPEA registrou, em janeiro de 2024, alta de 13,79% no Feijão-carioca no varejo de Piracicaba, atribuindo o movimento à escassez e à piora da qualidade do grão por chuvas e outros eventos climáticos adversos.
O ponto mais importante é entender quando esse risco costuma ganhar força. Eventos de ENSO, como El Niño e La Niña, normalmente se desenvolvem ao longo do meio do ano, ganham mais corpo no segundo semestre e costumam atingir o pico entre dezembro e fevereiro. Ou seja, quando o mercado entra no fim do ano e no começo do seguinte, geralmente já não está mais discutindo hipótese climática. Está discutindo consequência.
Para o Brasil, o desenho clássico do El Niño é conhecido: mais risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste e mais chuva no Sul. Para o Feijão, isso significa duas ameaças bem objetivas. De um lado, estresse hídrico em áreas onde a lavoura depende de regularidade de chuva. De outro, excesso de umidade em regiões onde chuva na colheita derruba qualidade e dificulta a formação de oferta comercial. O próprio zoneamento agrícola do MAPA para Feijão destaca que o excesso de chuvas durante a colheita é altamente prejudicial à cultura.
E há um detalhe que o mercado não deveria ignorar agora. Em 12 de março de 2026, a NOAA informou que a La Niña seguia em fevereiro, mas com transição para neutralidade esperada no curto prazo e com 62% de chance de surgimento de El Niño entre junho e agosto de 2026, podendo persistir até o fim do ano. Traduzindo para a linguagem do mercado: ainda não é problema confirmado, mas já é risco suficiente para entrar no radar de quem produz, vende, empacota ou precisa comprar cobertura.
Em resumo, o El Niño costuma ser mais perigoso para o mercado de Feijão justamente quando atravessa o segundo semestre e entra no verão, porque é aí que o clima deixa de ser previsão e começa a virar quebra, perda de qualidade ou retenção de oferta. Em Feijão, o preço raramente espera o estrago aparecer por completo. Ele começa a andar quando o mercado percebe que o risco climático deixou de ser conversa e virou probabilidade.
