O Sudão enfrenta um forte declínio em suas exportações agrícolas, especialmente no mercado de Gergelim, que perdeu cerca de 94% de participação na China, principal compradora mundial do produto. O país, que já liderou o fornecimento global, sofre com altos custos de produção, impostos excessivos, problemas logísticos, doenças nas lavouras e os impactos da guerra civil, fatores que reduziram drasticamente sua competitividade internacional.
Dados do Banco Central sudanês mostram que o Gergelim ainda gerou US$ 333 milhões (cerca de R$ 1,83 bilhão) em exportações no último ano, mas países como Brasil, Níger, Tanzânia e Moçambique vêm ocupando o espaço deixado pelo Sudão. Especialistas alertam que, sem reformas urgentes em infraestrutura, tributação, logística e políticas de apoio à produção e exportação, o país pode enfrentar um colapso ainda maior em sua balança comercial.
Exportações sudanesas perdem força nos mercados globais: causas e soluções
SUDÃO - Após décadas de destaque, as exportações sudanesas começaram a perder competitividade nos mercados globais em meio a um cenário político e econômico profundamente complexo. A economia do Sudão depende cada vez mais das receitas de exportação para reduzir o déficit comercial, agravado pela queda das vendas externas e pelo aumento dos custos de importação.
A situação levou o governo a intensificar reuniões e medidas emergenciais para tentar conter a deterioração da crise econômica, agravada pela guerra e pela desvalorização da libra sudanesa frente às moedas estrangeiras.
Apesar da forte dependência das exportações, inúmeros obstáculos contribuíram para que os produtos sudaneses perdessem espaço nos mercados internacionais — especialmente o Gergelim, o Amendoim, as sementes de Melancia, a goma arábica e até mesmo o ouro, afetado pelo contrabando e por políticas governamentais consideradas pouco eficientes.
Segundo relatórios econômicos recentes, as exportações de Gergelim do Sudão sofreram uma queda drástica, com perda de 94% de participação no mercado internacional.
A retração também atinge o mercado de Amendoim. O preço da tonelada sudanesa chegou a US$ 1.350 (aproximadamente R$ 7.425), acima dos US$ 1.300 (cerca de R$ 7.150) praticados no mercado chinês, principal comprador do produto. Com isso, importadores chineses passaram a buscar fornecedores mais competitivos.
Números e estatísticas
As exportações totais do Sudão no último ano somaram cerca de US$ 2,64 bilhões (aproximadamente R$ 14,52 bilhões), enquanto as importações alcançaram US$ 6,49 bilhões (cerca de R$ 35,69 bilhões), resultando em um déficit comercial próximo de US$ 3,86 bilhões (aproximadamente R$ 21,23 bilhões).
De acordo com relatório do Banco Central do Sudão, as exportações foram lideradas por minerais, produtos agrícolas e gado.
O país exportou 14 toneladas, 722 quilos e 15 gramas de ouro, avaliados em US$ 1,536 bilhão (cerca de R$ 8,45 bilhões). Também exportou animais vivos no valor de US$ 466 milhões (aproximadamente R$ 2,56 bilhões) e Gergelim no valor de US$ 333 milhões (cerca de R$ 1,83 bilhão). O ouro representou mais de 58% das exportações sudanesas no período.
Declínio no cultivo de Gergelim
O comerciante Yasser Ali Al-Saab, do mercado de Gedaref, afirmou que o Sudão perdeu liderança nas exportações de Gergelim devido aos altos custos de produção e ao avanço de doenças nas lavouras, consequência da redução dos programas de proteção vegetal.
Segundo ele, a doença conhecida como “hamoush”, que afeta plantações de sésamo, comprometeu significativamente a produtividade.
Além disso, a queda dos preços internacionais do Gergelim, somada ao aumento dos custos internos, reduziu as áreas cultivadas com a cultura.
O colapso do Gergelim sudanês
Muhannad Awad Mahmoud, membro da Câmara Nacional de Exportadores, afirmou em artigo publicado na plataforma Sudanhorizon que o Sudão perdeu quase 94% de sua participação no mercado chinês de Gergelim em poucos anos.
Segundo ele, em 2018 a China importou 254.935 toneladas de Gergelim sudanês, de um total de 827.878 toneladas, equivalente a 30,8% do mercado chinês. Já em 2025, o volume caiu para apenas 26.618 toneladas, de um total de 1.460.169 toneladas importadas, o que representa cerca de 1,8%.
O artigo destaca que países como Níger, Tanzânia, Moçambique e Brasil passaram a ocupar o espaço deixado pelo Sudão.
Awad atribuiu a perda de competitividade ao alto preço do Gergelim sudanês, que alcança US$ 1.450 por tonelada (aproximadamente R$ 7.975), enquanto concorrentes comercializam o produto por cerca de US$ 950 (aproximadamente R$ 5.225) por tonelada.
Ele afirmou ainda que os produtores não perdem dinheiro apenas no campo, mas principalmente ao longo da cadeia logística, devido ao acúmulo de impostos, taxas e elevados custos de transporte.
Críticas à falta de políticas públicas
O jornalista econômico Abdel Wahab Gomaa afirmou que o declínio das exportações sudanesas está diretamente ligado à ausência de políticas consistentes de apoio à produção e exportação.
Segundo ele, desde a separação do Sudão do Sul, em 2011, as políticas voltadas às exportações se deterioraram continuamente.
Gomaa alertou que, sem reformas profundas na produção, logística, infraestrutura e políticas monetárias, o país poderá enfrentar um cenário de “exportações zero”, provocando um choque severo na economia nacional.
Caminhos para a recuperação
Especialistas defendem a criação de um “corredor verde” para exportações, com coordenação entre governos estaduais e federal para reduzir burocracias e custos logísticos.
Também sugerem ampliar linhas de financiamento bancário, incentivar o setor privado com isenções fiscais e alfandegárias e investir na recuperação da infraestrutura de estradas, armazéns, portos e sistemas alfandegários.
O economista Ahmed Bin Omar destacou que a recuperação da competitividade depende da reabertura e segurança das rotas de produção e exportação, afetadas pela guerra.
Ele também defendeu a unificação de impostos e taxas para tornar os produtos sudaneses mais competitivos no mercado global.
Reportagem original publicada por Sudan Horizon
Disponível em https://sudanhorizon.com/sudanese-exports-losing-their-shine-in-global-markets-causes-and-solutions/