Durante muitos anos, o Grão-de-bico foi visto pelos brasileiros como um ingrediente exótico, presente principalmente em receitas da culinária árabe e mediterrânea. Hoje, porém, a realidade é diferente. O crescimento da busca por proteínas vegetais, a popularização de preparações como homus, saladas e snacks saudáveis e o interesse por dietas mais diversificadas colocaram essa Pulse entre os alimentos que mais ganham espaço nas gôndolas e nas mesas do país.
Mais do que uma tendência gastronômica, o Grão-de-bico representa uma oportunidade para toda a cadeia produtiva brasileira. Enquanto o consumo interno cresce ano após ano, a produção nacional avança impulsionada pela pesquisa agrícola, pela adaptação da cultura ao Cerrado e pelo interesse de mercados internacionais cada vez mais demandantes.
Uma das Pulses mais consumidas do mundo
O Grão-de-bico (Cicer arietinum) está entre as Pulses mais produzidas e consumidas globalmente. Presente na alimentação de países da Ásia, Oriente Médio, Europa e Norte da África, ele desempenha papel importante na segurança alimentar de milhões de pessoas.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Grão-de-bico é uma fonte acessível de proteína vegetal, fibras, vitaminas e minerais, além de apresentar baixa pegada ambiental quando comparado a muitas outras fontes de proteína. A entidade destaca as Pulses como culturas estratégicas para sistemas alimentares mais sustentáveis e resilientes.
Nutrição que vai além da proteína
Embora seja frequentemente lembrado pelo alto teor de proteína vegetal, o Grão-de-bico oferece muito mais do que isso. Estudos científicos apontam que o alimento também é rico em fibras alimentares, ferro, magnésio, zinco, fósforo, folato e compostos antioxidantes naturais.
A combinação de proteínas e fibras contribui para uma digestão mais lenta, favorecendo a saciedade e auxiliando no equilíbrio dos níveis de glicose no sangue. Pesquisas também associam o consumo regular de Grão-de-bico e outras Pulses à saúde cardiovascular, ao bom funcionamento intestinal e à diversificação das fontes de proteína na alimentação.
Além disso, por ser naturalmente versátil, o Grão-de-bico pode ser consumido em saladas, sopas, ensopados, hambúrgueres vegetais, farinhas, massas e pastas, tornando-se uma alternativa prática para diferentes perfis de consumidores.
Consumo brasileiro segue em expansão
Embora ainda esteja distante dos volumes observados em países como Índia, Turquia ou Paquistão, o consumo brasileiro vem crescendo de forma consistente nas últimas duas décadas.
O aumento da procura por alimentos de origem vegetal, aliado à influência da culinária internacional e ao crescimento do mercado de produtos saudáveis, impulsionou a presença do Grão-de-bico nos supermercados e na indústria alimentícia.
Esse movimento é acompanhado por uma ampliação da oferta de produtos derivados, como homus, snacks assados, massas enriquecidas e farinhas à base de Grão-de-bico, ampliando as possibilidades de consumo e agregação de valor à cadeia produtiva.
Produção nacional avança e ganha espaço no Cerrado
O cultivo de Grão-de-bico no Brasil é relativamente recente quando comparado a culturas tradicionais como o Feijão, mas vem apresentando crescimento expressivo desde a última década. Pesquisas conduzidas pela Embrapa Hortaliças permitiram o desenvolvimento de cultivares adaptadas às condições tropicais do Cerrado, abrindo caminho para a expansão da cultura em estados como Goiás, Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso e Distrito Federal.
As variedades desenvolvidas pela instituição apresentam produtividade entre 2,5 e 3,5 toneladas por hectare, índices que superam significativamente a média mundial da cultura. A cultivar BRS Aleppo, por exemplo, tornou-se uma das principais referências para os produtores brasileiros devido à sua adaptação às condições do Brasil Central e ao elevado potencial produtivo.
Além da rentabilidade, o Grão-de-bico desperta interesse por sua capacidade de diversificar sistemas produtivos, especialmente em áreas irrigadas durante o período de inverno e em regiões de Cerrado onde os agricultores buscam alternativas de maior valor agregado.
Brasil ainda depende das importações
Apesar dos avanços da produção nacional, o Brasil continua sendo importador líquido de Grão-de-bico. Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indicam que o país historicamente importa volumes superiores a 7 mil toneladas por ano para complementar o abastecimento do mercado interno. Os principais fornecedores são Argentina e México, além de outros países produtores da América Latina.
Levantamentos da Embrapa mostram que, ainda em meados da última década, o Brasil importava cerca de 8 mil toneladas anuais para atender ao consumo doméstico, cenário que impulsionou investimentos em pesquisa e no desenvolvimento da produção nacional.
O crescimento do consumo interno continua criando oportunidades para expansão da produção brasileira e redução da dependência externa.
Exportações ainda são pequenas, mas mostram potencial
No comércio internacional, o Brasil ainda ocupa posição modesta entre os exportadores de Grão-de-bico. No entanto, os embarques vêm crescendo gradualmente. Dados compilados a partir do comércio exterior brasileiro mostram que as exportações nacionais já registraram crescimento significativo nos últimos anos, alcançando mercados como Paquistão, Índia, Egito e Paraguai.
A expectativa do setor é que o avanço da produção, aliado ao desenvolvimento de cultivares adaptadas e ao aumento da produtividade, permita ao país ampliar sua presença em mercados consumidores tradicionais da Ásia, Oriente Médio e Norte da África.
Segundo a Embrapa, o potencial brasileiro é especialmente promissor porque o país consegue produzir com produtividade superior à média mundial, oferecendo uma alternativa competitiva para atender à crescente demanda global por Pulses.
Uma Pulse para o presente e para o futuro
O crescimento do Grão-de-bico no Brasil reflete uma transformação maior que ocorre no mercado de alimentos. Consumidores buscam cada vez mais diversidade, praticidade e fontes alternativas de proteína, enquanto produtores procuram culturas capazes de gerar valor e acessar novos mercados.
Nesse contexto, o Grão-de-bico surge como uma Pulse capaz de conectar saúde, sustentabilidade e oportunidades econômicas. Para o Instituto Brasileiro do Feijão, Pulses e Colheitas Especiais (IBRAFE), acompanhar e incentivar o desenvolvimento dessa cadeia é parte fundamental da missão de fortalecer o setor brasileiro de Pulses e ampliar sua relevância no cenário nacional e internacional.