O Brasil deve mais que dobrar a produção de Feijão-mungo-preto em 2026, impulsionado pela forte demanda da Índia e pela migração de áreas antes destinadas ao Gergelim. Apesar de problemas de produtividade em algumas regiões, o aumento da área cultivada em estados como Tocantins e Mato Grosso reforça a expectativa de uma safra recorde, com exportadores avaliando que praticamente toda a produção poderá ser absorvida pelo mercado indiano.
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O despertar do Mungo-preto no Brasil/Por que 2026 testemunhou um boom
Perspectivas de produção de Feijão-mungo-preto
Conversamos com Carla Borges, da NG Trade, sobre a rápida expansão da produção de mungo-preto no Brasil. Ela explica o que impulsionou o aumento do plantio este ano, como estão as produtividades nas principais regiões produtoras e por que a demanda indiana continua sendo fundamental para as perspectivas do mercado.
“Há muitas opiniões divergentes sobre o tamanho da safra de Feijão-mungo-preto no Brasil, mas considerando as áreas irrigadas e não irrigadas, acredito que ela poderá ser muito maior do que a do ano passado — possivelmente mais que o dobro. A produção brasileira do ano passado é geralmente estimada em cerca de 250 mil toneladas.”
A região do Tocantins possui uma área irrigada de aproximadamente 90.000 hectares dedicada ao cultivo de mungo-preto, com produtividade geralmente alta. Se tudo correr bem, essa área normalmente produz cerca de 2 toneladas por hectare e o plantio está prestes a começar. A qualidade dessa região é a melhor do Brasil, e a colheita ocorrerá em setembro. No entanto, existe o risco de as licenças de irrigação não serem liberadas este ano, devido à disponibilidade hídrica inferior a habitual.
“Não houve estoque remanescente do ano passado, nem de Feijão-preto nem de mungo-preto. Qualquer estoque remanescente de mungo-preto foi transformado em sementes. Os preços do Gergelim chegaram a cair para US$ 930/MT, então nós, exportadores, tivemos que fazer alguma coisa, e uma parte relevante das áreas de plantio de sementes de Gergelim foi convertida para Feijão-preto, já que a demanda por mungo-preto era muito maior do que a de sementes de Gergelim quando a decisão de plantio foi tomada, nas áreas não irrigadas.”
Colheita de Tocantins; mudança na área cultivada com Gergelim e aumento na produção de mungo-preto
“No Tocantins, estão colhendo agora o mungo-preto nas áreas de sequeiro, onde houve um aumento na área plantada. Acho que já colhemos cerca de 120 mil toneladas das áreas de sequeiro e outras 90 mil toneladas das áreas irrigadas para serem colhidas em setembro. As áreas de sequeiro tiveram problemas com a produtividade porque a safra de soja atrasou, o que também prejudicou o plantio do mungo-preto. A expectativa era de cerca de 1,2 tonelada por hectare, mas a colheita foi metade disso, com uma média máxima de 0,7 tonelada por hectare.”
Na época das decisões sobre o plantio, tínhamos acabado de receber a notícia de que Myanmar iria trocar o mungo-preto pelo Feijão-mungo verde devido à queda de preços, o que foi mais um motivo para os agricultores brasileiros optarem estrategicamente pelo mungo-preto.”
Mato Grosso; novas áreas e rendimentos variáveis
“Na nossa região do Vale do Araguaia não se plantou mungo-preto no ano passado, mas este ano haverá pelo menos 50.000 hectares devido aos preços do Gergelim. A área plantada aumentou, mas as colheitas são muito baixas.”
Na área '163', no centro do Mato Grosso, a terra é boa e acredito que a produtividade será melhor do que em Araguaia — pelo menos 0,9 MT/ha. Outros exportadores acham que será menor do que eu, então não posso afirmar com certeza, mas acredito que essa área também tenha apresentado crescimento.
A terceira área principal deste ano é Campo Novo do Parecis. Creio que lá possam existir 120.000 hectares.
Múltiplas áreas menores; panorama de produção agregada sólido.
“Há uma área em Paragominas onde antes se cultivava Gergelim e que agora também foi plantada mungo-preta. Também ouvi dizer que haverá plantio no Maranhão, Piauí, Bahia e no norte de Goiás — eu mesmo tenho um contrato no estado de São Paulo. No entanto, ouvi dizer que a produtividade nessas áreas do norte está muito baixa e que algumas áreas sequer serão colhidas.”
“Ao somar todos esses fatores, o cenário inicial para a produção de mungo-preto parecia indicar um aumento muito significativo, mas os resultados muito ruins estão compensando consideravelmente a queda na produção.”
Feijão-mungo verde compete, mas não vence no Brasil.
“O Feijão-mungo verde e o mungo-preto foram plantados ao mesmo tempo que a soja, mas o Feijão-mungo verde tem um ciclo de 65 dias, enquanto o mungo-preto tem um ciclo de 90 dias. A colheita do Feijão-mungo verde já foi praticamente concluída. A safra não é muito grande — a produtividade do Feijão-mungo verde pode variar bastante, e o que tenho ouvido dos agricultores é que as safras deste ano não estão muito boas.”
Parte do problema reside no espaçamento entre as sementes. O Feijão-mungo verde precisa de 17 cm para ser mais produtivo, mas foi plantado a uma distância de 45 cm, pois essa é a calibração do equipamento para a soja. O Feijão-mungo verde produz vagens apenas na extremidade da haste, enquanto o mungo-preto desenvolve vagens ao longo de todo o caule, o que significa que pode ser plantado com o mesmo espaçamento da soja e ainda obter ótimas colheitas.
Não haverá tanta disponibilidade de Feijão-mungo verde porque o mercado, quando a decisão de plantio foi tomada, já sinalizava que os preços cairiam devido a Mianmar. Os agricultores também preferem o mungo-preto porque o retorno por tonelada é o mesmo e o Feijão-mungo verde é menos produtivo. Não vejo o Brasil como um grande produtor de Feijão-mungo verde no curto prazo, a menos que sejamos capazes de desenvolver uma variedade mais produtiva.
Contratos a termo; safra já em grande parte pré-vendida
“Não acho que todo o produto esteja pré-vendido, mas acredito que a maior parte esteja. Também não vejo o mercado caindo, já que nossa colheita é distribuída ao longo do ano; não haverá tanta pressão de uma só vez.”
Demanda da Índia; preocupações com a qualidade em Mianmar
“A demanda por mungo-preto da Índia parece boa, porque ouvi dizer que a safra de Myanmar não está boa e os preços de lá estão mais altos do que os oferecidos pelo Brasil. A qualidade também é pior do que a do Brasil e ainda não vimos nenhuma queda significativa nos preços.”
Muitos comerciantes aqui acreditam que a Índia precisa de toda essa safra extra do Brasil porque sua própria produção diminuiu e a qualidade de Myanmar está muito ruim. As pessoas acreditam que tudo o que o Brasil produzir este ano será comprado pela Índia.
Do meu ponto de vista, posso afirmar que dobrei meus contratos de mungo-preto ano após ano, mas ainda recebo novos pedidos diariamente. Quando a carga começar a chegar à Índia, poderá haver mais pressão sobre a demanda e os preços, mas se a demanda esperada for real, a Índia continuará estocando. É possível observar que os preços locais na Índia já estão subindo, o que indica que os estoques locais provavelmente estão se esgotando.
Reportagens originais publicadas por Pulse Pod
Disponível em https://Pulsepod.globalPulses.com/trade-talk/post/brazil-urad-awakening-why-2026-has-seen-a-boom