Começou o festival de lorotas em Brasília

Por: IBRAFE,

19 de maio de 2026

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Com Feijão-carioca valendo mais de R$ 450 no campo e R$ 500 nos polos de consumo, e o Feijão-preto se preparando para reações, o relatório da CONAB confirma parte do que o mercado já vinha enxergando: a safra brasileira de Feijão 2025/26 é menor, a área caiu e o Paraná entrou no centro da preocupação. A produção nacional foi estimada em 2,90 milhões de toneladas, com queda de 5,2% em relação à safra anterior e produtividade média praticamente estável, ao redor de 1.146 kg por hectare. E olha que a CONAB tem uma miopia enorme para fazer avaliações de safra.

 E mais: o número nacional, sozinho, esconde mais do que revela.

 No Paraná, a área da primeira safra foi cerca de 40% menor que a do ano passado. Na segunda safra, a redução foi próxima de 37%. Isso significa que a produção paranaense deve ficar seguramente mais de 40% abaixo do ciclo anterior. No Feijão-preto, a situação é ainda mais delicada. A leitura de campo indica perda de, no mínimo, metade do que poderia ser colhido.

 Para quem acompanha o Clube Premier desde o fim do ano passado, isso não chega como surpresa. Já vínhamos alertando que este período seria crítico para o abastecimento. O problema é que, quando quem sofre é o produtor, quase ninguém se mexe. No ano passado, produtores pequenos, médios e grandes do Paraná venderam Feijão-preto abaixo do valor de garantia do governo. Naquele momento, o prejuízo estava na mão do produtor do Sul. Pouca gente deu atenção. Agora, a conta começa a chegar para o consumidor.

 E aqui começam as lorotas.

A primeira é dizer que o problema do Feijão se resolve plantando menos soja. Não é assim. O Feijão exportável, como mungo-preto, mungo-verde, caupi e outros tipos especiais, não é plantado na mesma lógica nem, necessariamente, nas mesmas áreas do Feijão-preto e do Feijão-carioca. Misturar tudo como se fosse uma lavoura só é erro básico de quem quer fazer discurso, não análise.

 A segunda lorota é imaginar que o governo vai resolver o abastecimento nacional atendendo mais produtores familiares. Que fique claro: apoiar o produtor familiar é correto, necessário e deve ser aplaudido. Mas isso não resolve, sozinho, a necessidade de abastecer o Brasil com algo próximo de 3 milhões de toneladas de Feijão por ano.

 Não dá para ser piegas nessa discussão. Em muitas regiões, o produtor familiar não escolhe Feijão porque há outras atividades mais interessantes, menos arriscadas ou mais adequadas à sua realidade. Também não planta soja ou milho em escala comparável aos grandes sistemas comerciais. Portanto, usar o produtor familiar como resposta automática para a crise do Feijão é bonito no discurso, mas frágil na prática.

 O Feijão precisa ser tratado com respeito ao consumidor e ao produtor. Isso significa política agrícola séria, seguro adequado, crédito compatível com o risco, dados melhores, estímulo correto à produção, mecanismos de garantia que funcionem e uma visão clara por tipo comercial. Feijão-preto não é Feijão-carioca. Feijão exportável não é o Feijão do prato diário do brasileiro. Produção irrigada não tem a mesma lógica do sequeiro. Paraná não pode ser lido como se fosse Mato Grosso. Minas não pode ser tratada como se tivesse estoque infinito.

 Também é por isso que o IBRAFE discorda da projeção de exportação muito baixa apresentada pela CONAB. A redução da oferta de Feijão-preto e Feijão-carioca no mercado interno não significa, automaticamente, que o Brasil deixará de exportar volumes relevantes. O país pode, sim, repetir números próximos aos do ano passado, dependendo da composição dos embarques, da disponibilidade dos Feijões exportáveis, da demanda internacional, do câmbio e da logística.

 A leitura correta é separar os mercados. O abastecimento interno de Feijão-preto e Feijão-carioca exige atenção máxima. Já os Feijões voltados à exportação obedecem outra dinâmica, outro mapa produtivo e outra demanda.

 O que não dá mais é para o governo lembrar do Feijão apenas quando o preço sobe na gôndola. Quando o produtor vende abaixo do custo ou abaixo da garantia, ninguém aparece. Quando a área cai, ninguém se antecipa. Quando o clima quebra a safra, todos fingem surpresa. Depois, quando o consumidor paga mais caro, surgem soluções improvisadas e explicações fáceis.

 Feijão não é cultura para amadorismo. É alimento básico, é segurança alimentar, é renda no campo e é estabilidade no prato. Ou o Brasil passa a tratar o Feijão com a seriedade que ele merece, ou vamos continuar nesse ciclo conhecido: primeiro o produtor paga a conta, depois o consumidor paga mais caro e, no fim, todos fingem que a crise nasceu ontem.

 

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