Na Suíça, cientistas propõem cortar o consumo de carnes em 50%

Por: Assis Moreira,

04 de fevereiro de 2023

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Guia para reorientação total do sistema alimentar visa toda a cadeia de valor, da produção ao consumo.

Um grupo de 42 cientistas de instituições de renome na Suíça acaba de apresentar ao governo desse que é um dos países mais ricos do mundo um guia de ação para reorientar inteiramente o sistema alimentar de maneira sustentável. Estimam que a segurança alimentar está em perigo. Guerras, pandemias, empobrecimento da biodiversidade colocariam em perigo o abastecimento do país.

As sugestões incluem redução em 50% do consumo de carnes (não importa se bovina ou de frango), aumento de taxas e consumir mais plantas.

Em relatório sobre as perspectivas agrícolas 2022-2031, publicado no ano passado, a FAO (Agencia da ONU para Agricultura e Alimentação) e a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Economico) já insistiam que os próximos anos deveriam trazer mudanças sem precedentes nos padrões de consumo de alimentos. As decisões de compra são cada vez mais determinadas por fatores que vão além dos preços, cultura e sabor, envolvendo cuidados com a saúde, preocupações ambientais e considerações éticas relativas ao bem-estar e ao consumo de animais e seus produtos. Cresce o número de pessoas que adotam estilos de vida vegetarianos, veganos ou flexitariano em países desenvolvidos, sobretudo entre os jovens consumidores.

Agora, o grupo de cientistas suíços propõe que o país se torne um pioneiro em nível mundial com ações baseadas cientificamente. Não se trata apenas da agricultura, e sim de reorientar o sistema alimentar ao longo de toda a cadeia de valor, desde a produção até o consumo. Argumenta que a pegada carbono da Suíça é elevada, por exemplo com consumo e importação de alimentos animais ‘provenientes de países cujos pontos quentes da biodiversidade estão ameaçados, como o Brasil (soja, café, arroz), Africa do Oeste (cacau), Colômbia (café) e Indonésia (óleo de palma, cacau)’.


O guia indica de maneira concreta a ordem cronológica para diferentes medidas para modificar produção e consumo. Uma constatação é de que medidas individuais são frequentemente pouco eficazes e difíceis a implementar, mas podem ser efetivas se aplicadas em conjunto baseado no princípio de ‘encorajar e exigir’.


Numa primeira face, o comitê científico recomenda a criação de um amplo fundo para financiar transformações até 2025. Por exemplo, promover alimentação saudável e sadia fora de casa, estimular utilização de variedades vegetais, ajuda para reconversão agrícola.
Na segunda fase, a partir de 2025, o governo precisará impor mais e mais a medidas regulamentares e taxações. Por exemplo, introduzir uma taxa carbono sobre os produtos alimentares, suprimir a taxa reduzida para produtos poluidores do setor agrícola, aumentar as tarifas de importação sobre produtos de origem animais, alimentos para animais e insumos minerais. E também favorecer compras públicas de alimentos sustentáveis.


A terceira fase, a partir de 2026, se concreta em medidas de política agrícola e apoio a zonas rurais. Combina subsídios para produção de alimentos ambientalmente mais sustentáveis, como também mais barreiras nas importações. A interdição de promoções para carnes também é recomendada.


Em 2030, entraria em vigor a quarta fase do plano, com medidas que hoje ainda são pouco aceitas. Em particular, cortar o consumo de carnes. Deveria passar de cerca de 100 gramas por dia e por pessoa atualmente para 50 gramas. Os cientistas colocam ênfase na redução no consumo de carne para reduzir consideravelmente a pegada ecológica, ter um efeito positivo sobre a saúde e liberar áreas para outros tipos de produção.


Sugerem também que os suíços deveriam consumir apenas dois ovos por semana, em média. O consumo de pescado não deveria aumentar, para não ampliar a ameaça a várias espécies, e se limitar a comer no máximo 20 gramas de peixe por dia.

Também os lácteos deveriam ser bastante reduzidos. Um suíço consome 619 gramas por dia de produtos como leite, queijo, iogurte. A sugestão é para reduzir tudo isso para algo próximo de 350 gramas.

Em contrapartida, o consumo de leguminosos deveria passar de 5 gramas por dia e por pessoa para 35-75 gramas ao longo do tempo. Nozes e grãos, azeitonas e abacate passar de 10 gramas por dia para 30-50 gramas. Outras fontes vegetais de proteínas são recomendas.

O guia dos cientistas vai provocar mais debate. A Suíça é um mercado pequeno, mas a tendência é clara, e o Brasil, líder nas exportações de carnes, tem razão para ficar atento.

Fonte: https://valor.globo.com/opiniao/assis-moreira/coluna/na-suica-cientistas-propoem-cortar-o-consumo-de-carnes-em-50percent.ghtml

 

 

 

 

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