Por: Fernanda Chemim, Eng.ª Agrônoma, IBRAFE
Tão importante quanto a calagem é a aplicação de gesso. Na calagem o calcário age muito mais no local da sua aplicação e muito lentamente além. No SPD (Sistema de Plantio Direto), por exemplo, onde a aplicação do calcário se dá de forma mais superficial depois de implantado o sistema, o efeito também é superficial, no qual se espera uma ação forte até 10 cm e abaixo pode ter efeito, mas lento. Para melhoria em camada mais profunda o gesso, portanto, se faz importante não só em SPD mas para toda lavoura que quer ter um melhor desempenho e garantia de sucesso, principalmente quando as condições não são as mais favoráveis para a planta.
A utilização do gesso aumentará os níveis de cálcio e reduzirá a toxidade do alumínio em profundidade em um menor que a calagem e permitirá um melhor desenvolvimento das raízes em profundidade. No entanto, ele não altera o pH, pois não é corretivo, mas condicionador do solo. Por isso é importante a aplicação de ambos, mas em tempos diferentes.
Em camadas mais profundas o alumínio (Al) se liga ao composto do gesso (CaSO4.2H2O), retirando o Ca (cálcio) e se ligando em seu lugar, liberando o Ca e formando então a composição AlSO4+ no subsolo, que não é tóxica para a planta. Não ocorre alteração no pH mas aumenta o Ca e diminui a toxicidade do Al, resolvendo os dois entraves do problema de desenvolvimento da raiz do ponto de vista químico, e assim, aumentando o sistema radicular.
Gesso
Existe o gesso agrícola e o gesso mineral, usa-se o agrícola por ter maior oferta no mercado, no entanto, a composição é a mesma dos dois, porém o agrícola possui alguns resíduos em sua composição.
Cuidados com a aplicação
Deve haver um cuidado com exageros na dose de gesso de forma a gerar uma deficiência de Mg (magnésio), pois dependendo da quantidade de gesso empregada e o nível de Mg no solo, pode-se induzir uma deficiência de Mg. O prejuízo com a deficiência de Mg pode ser maior que o benefício que o gesso irá fazer no subsolo já que o magnésio também é importante para o sistema radicular e uma vez que o Ca pode pegar o lugar do Mg nas ligações catiônicas do solo.
Como resolver
O passo inicial é fazer a correção da acidez. Use calcário dolomítico caso a área tenha problema no subsolo. Isso vai elevar os níveis de Mg a tal ponto que, independente da dose de gesso empregada, a redução do Mg nunca vai estar abaixo do limiar crítico e manterá o Mg acima de 0,8 cmolc de carga/dm3. Quanto maior a folga de Mg maior será a folga que terá para aplicar gesso sem preocupação. Áreas que receberam muito calcário calcítico podem estar com o limiar da área muito próximo do patamar máximo recomendado.
Em estudos com a aplicação de calcário dolomítico os níveis de Mg se mantiveram bons após 13 anos depois até mesmo com aplicação de doses altas de gesso em SPD, como 12 t/ha, não afeta o Mg. Assim, a correção da acidez com o uso de calcário dolomítico elimina o problema de diminuição do Mg pelo gesso.
Vale uma ressalva: o excesso de Mg também dificulta a absorção de K (potássio), pois os dois competem no mesmo sítio de ligação catiônica. Assim, é importante verificar e aplicar calcário calcítico quando o K estiver perto do limiar crítico e evitar aplicar gesso. Fazendo assim, alivia-se um pouco de Mg, libera K para a planta que o absorve com mais facilidade. Por outro lado, quando em equilíbrio, o gesso vai melhorar a eficiência do uso do K, pois a liberação do K aumenta a extração do K pela planta antes de lixiviar.
Esse cenário mostra a importância de se fazer a calagem antes do gesso, com pelo menos três meses de antecedência. Fazendo assim, o calcário terá tempo suficiente para reagir, podendo ser, por exemplo, intercalado ano a ano com gesso; calcário antes do inverno e gesso antes do verão. O gesso pode ser aplicado até poucos dias antes da semeadura com efeito bom já na safra, na sequência.
No SPD (Sistema de Plantio Direto)
O diferencial com a aplicação de gesso no SPD que mais se destaca é a redução da saturação que ocorre nas camadas abaixo de 20 cm. Esse benefício não é possível com a calagem num curto espaço de tempo mesmo em solos mais argilosos.
Gesso aumenta a eficiência da adubação nitrogenada
Em estudos, o uso de gesso aumentou a eficiência do uso de nitrogênio (N) pela cultura do milho de 27% a 38%, avaliado pelo valor parcial de produtividade, ou seja, kg de grãos/kg de N aplicado, quando produziu mais grão com menos N, porque foi mais eficiente. A média nacional de quanto efetivamente do N aplicado é aproveitado pela planta é de 50%, com o gesso se melhora 27%-38% a eficiência do N e isso é muito significativo.
E porque foi mais eficiente? Aumentou a absorção de N porque cresceu mais raízes. O nitrato é muito móvel no solo e independente de qualquer fonte de N que se use, ele sempre se converte em nitrato no solo, assim, as raízes mais profundas capturam o nitrato que se move para baixo no perfil, e se absorveu mais nitrato é porque absorveu mais água também.
Podemos observar que o gesso aumenta a eficiência da adubação nitrogenada e isso é relevante no cenário atual, considerando o aumento dos custos dos fertilizantes. O aumento de eficiência é puxado tanto pela eficiência em termos econômicos e também por questões ambientais.
Gesso aumenta o aporte de carbono no solo
Ao se utilizar gesso, devemos observar a raiz da planta. Se houve crescimento da raiz, consequentemente houve crescimento da parte aérea também. O resultado é uma maior colheita de que por sua vez deixou mais resíduos. O resultado final, ao longo de várias culturas e vários anos é um aporte fabuloso de carbono (C).
Estudos mostraram que um SPD em 13 anos aportou 6,2 t/ha de C de 0-60cm, quando fizeram calagem em superfície com uso de gesso aportaram mais 5 t/ha de C. A calagem superficial associada ao uso de gesso aportou 80% do que o plantio direto fez em 15 anos, mais de 11 t/ha. E qual foi o atributo que melhor se relacionou com essa melhoria? O cálcio. Além de fazer a ponte segurando o carbono dentro dos macroagregados superficiais do solo, ele é primordial para o crescimento radicular, aporta mais raízes dentro do sistema que também vai aportando mais carbono ao longo do perfil, uma vez que a raiz permanece no sistema.
Quais as vantagens disso? O solo fica muito mais estruturado, de modo que há mais infiltração e armazenamento de água reduzindo drasticamente o estresse sobre a planta nesse ambiente.
No Feijão, quais os benefícios?
Hoje sabemos que araiz do feijoeiro pode ser muito maior do que tem se apresentado no campo, que muitas vezes se apresenta mais superficial devido ao solo compactado dentre outros fatores. Mas o fato é que se com um solo saudável, nutrido de forma equilibrada, feita a calagem junto com a aplicação de gesso, a raiz do Feijão pode alcançar 85-92 cm de profundidade. Isso permite uma melhor resistência da planta no campo, principalmente em períodos de seca e veranico, garantindo uma boa produtividade mesmo nestes períodos, não colocando em risco a lavoura. Esse tratamento tem como objetivo aumentar as raízes da planta. Aumentando as raízes, aumenta a absorção de nutrientes e água, principalmente dos mais moveis como é o caso do nitrogênio, diminuindo a necessidade de aplicação destes.
Além do mais, um perfil do solo adequado é favorável à planta e desfavorável aos patógenos, uma vez que estes se concentram nas camadas mais superficiais. Se o Feijão tem raiz mais profunda, por ter um perfil do solo saudável, evita-se doenças na raiz do Feijão.
Quando se justifica o uso de gesso
Quando atender ao menos um desses itens:
Camada diagnóstica: 20-40 cm ou 30-50 cm
Ca ≤ 0,4 cmolc/dm3 - SP e Minas Gerais
Ca ≤ 0,5 cmolc/dm3 - Cerrado
Ou
Al ≥ 0,5 cmolc/dm3 - quando o Al é tóxico
Ou
Saturação por Al (m) ≥ 20% - Cerrado
Saturação por Al (m) ≥ 30% - Minas
Saturação por Al (m) ≥ 40% - SP
Os maiores problemas do gesso, no entanto, nunca foram quanto a se aplicar ou não, mas quanto aplicar, de forma que seja economicamente viável.
Métodos de recomendação de gesso no Brasil
Teor de Argila é o método mais respeitado cientificamente, pois se há mais argila no subsolo há mais absorção de sulfato no subsolo e, se aumenta a absorção, é necessário aumentar a dose de gesso.
NG* (kg/ha) = 50X Argila (%)
*Necessidade de Gesso
No entanto, fazer estimativas precisas da taxa de dose de gesso é uma tarefa extremamente difícil, porque os efeitos do gesso são muito complexos nos solos e nas respostas das culturas. Seria necessário, além da argila, considerar os outros fatores, como aqueles mencionados acima. Um método ideal ainda não existe – considerando a agricultura mundial, não apenas o Brasil. Mas um novo método de recomendação foi publicado em 2018, que traz uma nova equação.
Este novo método considera a camada diagnóstica de 20-40 cm e se baseia na elevação da saturação por Ca na CTCe (Capacidade de Toca Catiônica Efetiva) do subsolo. Ele se baseia em elevar a saturação por Ca na CTCe do subsolo (20-40cm) a 60% quando inferior a 54%. Pois foi percebido em observações de 25 anos, uma correlação forte entre a produtividade das culturas e a saturação por Ca na CTCe (20-40cm), de forma que as maiores produtividades eram obtidas quando a saturação estava entre 54-60%.
Equação
NG (t/ha) = (0,6 X CTCe - teor de Ca em cmolc/dm3) X 6,4
*Necessidade de Gesso
- CTCefetiva é a soma de Al+Ca+Mg+K
- Teor de Ca em cmolc/dm3 que já existe na camada (20-40cm)
- 6,4 t gesso/ha para aumentar 1 cmol na cama de 20-40 cm até um ano após a aplicação. Ou seja, estou convertendo em gesso o quanto de cálcio quero efetivamente aumentar na camada 20-40cm.
Um exemplo da eficiênci
a desta fórmula está no fato de que um estudo feito nos Campos Gerais precisou de onze anos para verificar que o gesso não trouxe nenhum benefício nas áreas onde foram aplicados. Isso porque a %CaCTCe (20-40cm) inicial era igual a 61%, ou seja, pela análise inicial do solo, já tinha 61 de cálcio na CTCe e que, se calculada a necessidade de gesso pelo novo método já teriam identificado que não havia necessidade de aplicação de gesso, pois não haveria diferença significativa na produtividade, assim não haveria recomendação.
De acordo com estudo da Fundação MT, este método pode ser usado tanto para região Sul quanto cerrado.
Como aplicar a partir desse novo método
- Amostragem do solo na c
amada 20-40 cm;
- Recomenda-se distribuir a dose de gesso em uma única aplicação, ou de forma parcelada de acordo com a estratégia estabelecida para a melhoria do perfil do solo;
- Reaplicar gesso na superfície quando o solo apresentar saturação por Ca na CTCe < 54% na camada de 20-40cm. Isso dá frequência na aplicação e economicidade.
Amostragem e construção do perfil do solo em profundidade
- A amostra da camada de 0-10 cm é o sensor da necessidade da calagem na superfície, da frequência desta, quando o V<60%;
- Então, aplique calcário na camada de 0-20 cm a dose para elevar o V=70%, que é a mesma camada utilizada para a dose dos fertilizantes;
- E use a camada de 20-40 cm para estimar a dose de gesso, para elevar a dose de Ca a 60% quando for menor que 54%, pelo Método de Saturação de Ca na CTCe.
Isso vai criar solos com maior quantidade de carbono e maior capacidade de infiltração e armazenamento de água, e esse é o grande segredo do manejo, desenvolver essas caraterísticas para suportar períodos de estresse hídrico e manter altas produtividades.